quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Kriya Yoga e Ashtanga Yoga na Tradição de Krishnamacharya




             Kriya Yoga e Ashtanga Yoga
         Na Tradição de Krishnamacharya

 Curitiba - Março a Junho/2016



- Primeira etapa do Curso de Formação e aprofundamento para praticantes -

O curso “Kriya Yoga e Ashtanga Yoga na tradição de Krishnamacharya” é requisito obrigatório para a participação no Curso de Formação de Professores (terceira edição de Curitiba) e é, também, aberto a praticantes que desejam aprofundar sua prática e sua compreensão das várias dimensões do sistema apresentado por Patanjali. 


A participação é, portanto, aberta, inclusive, àqueles que não pretendem realizar a Formação. A realização dessa etapa deve ser vista como uma oportunidade de conhecer a tradição de Krishnamacharya, permitindo que a decisão de dar continuidade aos estudos através do Curso de Formação seja tomada com mais discernimento.


O curso é conduzido pelos professores autorizados e certificados diretamente por TKV Desikachar (filho de T. Krishnamacharya) para oferecer esse treinamento no Brasil.


Inscrições abertas

 Maiores informações - clique aqui

https://drive.google.com/file/d/0B_dhgTDlttqXZTdNcGtxMVIwdjRTQmNpRDdyU0RfblRaZVdF/view?usp=sharing



terça-feira, 15 de setembro de 2015

Uma breve visão do caminho gradual de Yoga (e o porquê do ensino individualizado)


1 - Emergência

A doença

A doença é o primeiro grande obstáculo para todos os seres humanos. Tanto a doença física quanto a doença emocional dificultam o desfrute de prazeres e o estudo e a reflexão profunda.  A tentativa de sobrevivência e a busca de equilíbrio das funções vitais básicas é nossa urgência. Muitas das técnicas que fazem parte da prática diária indicada pelo Yoga têm por objetivo prevenir doenças e acalmar sintomas nascidos de perturbações já estabelecidas.

A perturbação emocional

O segundo grande tema do Yoga é a pacificação das perturbações emocionais mais emergenciais, o que traz a essa abordagem um aspecto bastante subjetivo. A relatividade da eleição do que é emergencial não precisa ser visto como um problema, uma vez que nosso maior propósito é acalmar seu aspecto subjetivo, o desejo de livrar-se do problema, em primeiro lugar. Mesmo que o problema maior não seja aquele eleito pelo praticante, sua pacificação permitirá que ele tenha condições de reavaliar suas prioridades. Uma vez que a principal fonte de perturbação tenha acalmado, o professor pode auxiliar o praticante a refletir sobre o que será, de fato, um esforço útil no seu caminho de desenvolvimento. Aqui, é provável que o foco se estabeleça em questões vinculadas aos relacionamentos e seu conteúdo emocional. No Yoga, a análise de nossos relacionamentos e de nossas expectativas projetadas no mundo externo é um elemento essencial para a construção do processo de amadurecimento. Para isso, a relação terapêutica com o professor é o principal instrumento. Assim como ocorre em terapias psicológicas ocidentais, tal abordagem exige um acompanhamento frequente e tempo para o amadurecimento das percepções, análises e sua integração emocional. Com o tempo, o professor auxiliará o praticante a desenvolver seu próprio processo de discriminação como será apontado adiante. A relação terapêutica, na maioria dos casos, é acompanhada do desenvolvimento de práticas pessoais (asana, pranayama, meditação, estudo) que são inseridas na rotina do aluno para proporcionar a ele melhores condições internas. É essa condição interna que acaba por abrir o espaço mental necessário para a construção da aceitação de nossos obstáculos e para as transformações possíveis.



2 – A leveza do corpo e a qualidade mental

Corpo, respiração e mente

Na medida em que percebemos a diminuição das urgências apresentadas acima, um próximo passo é bem-vindo. E, no Yoga, consideramos que o aumento da estabilidade mental, concentração, capacidade de análise são alguns dos pontos importantes em qualquer processo de autoconhecimento. No Yoga esses aspectos estão ligados aos conceitos de Sattva, Rajas e Tamas. O torpor é considerado manifestação de Tamas e a ansiedade é considerada manifestação de Rajas. Tais características são fortemente afetadas pelos nossos relacionamentos íntimos, nossa rotina, alimentação, saúde física e mental e, também, por nossas crenças filosóficas ou religiosas. Como alicerces para a redução de agitação, inquietude e obtusidade são usados o que chamamos de Asana e Pranayama.

Asana é a prática física, sua técnica é realizada de forma a não deixar de lado o cuidado com os próximos elementos que serão tratados - a respiração e o treinamento mental. Devido à sua associação com técnicas respiratórias e de envolvimento mental, o Asana afeta profundamente essas duas dimensões, apesar de ser caracterizada como uma prática de ênfase física. O Yoga prioriza o desenvolvimento integral e, por essa razão, suas técnicas não trabalham de forma isolada essas várias camadas. O maior exemplo dessa integração é o conceito de Vinyasa, onde respiração e movimento corporal são conectados na execução de determinadas posturas. Já o pranayama é uma técnica centrada nos aspectos físicos mais sutis do que aqueles trabalhados no asana e que enfatiza um trabalho de aprofundamento e sensibilização da respiração. O pranayama, quando aprendido no momento certo e com as devidas adaptações pessoais realizadas pelo professor, oferece conquistas bastante superiores àquelas recebidas pela prática do asana, uma vez que o pranayama é o natural aprofunfamento e refinamento das conquistas do asana. O uso de técnicas físicas e respiratórias para afetar a mente traz o benefício de oferecer a desejada calma e estabilidade mental paralelamente ao aumento de bem-estar, leveza e saúde do corpo.


3 – Sabedoria

Mas, para que serve um bom carro se não sabemos para onde queremos ir? Para que serve um corpo e uma mente sem um claro propósito de vida? Um mundo emocional mais leve, um corpo mais saudável e uma mente mais clara e em paz são grandes conquistas. E essas mesmas conquistas permitirão que tracemos com mais refinamento nossos objetivos ao invés de sermos engolidos por desejos assentados em carências e fragilidades. Sendo assim, o yoga nos alerta para a necessidade de usarmos esse veículo (corpo e mente) para o desenvolvimento de sabedoria. O estudo voltado para o autoconhecimento, a discriminação sobre o que o mundo pode e o que não pode nos oferecer, a descoberta de camadas mais profundas de percepção que permitem o conhecimento daquilo que não é alcançado pelos meios mais evidentes, tudo isso é essencial para a realização do potencial humano, para que alcancemos uma satisfação e um contentamento mais abrangente. Grande parte dos sofrimentos humanos existe devido à sustentação de nossa visão restrita e imediatista. Somos fortemente tomados por aquilo que nossos sentidos e nossas emoções superficiais nos apresentam. Somos muito influenciados pela percepção sensorial e pouco utilizamos a análise e o estudo como base da ação cotidiana. Os sentidos querem ser satisfeitos, são gulosos e acreditam na felicidade que nasce de sua satisfação, porém, cabe à nossa mente mostrar a limitação dos mesmos. O sentidos são apenas ligados ao presente, sua duração é extremamente curta, para os sentidos não há ganho passado ou ganho futuro. O passado e o futuro, para eles, são ausência, são perda, pois não há, em nossa condição humana, como segurar eternamente a relação com qualquer objeto sensorial existente. A mente sabe disso e cabe a ela discriminar e mostrar sua soberania. Mas, para isso, ela necessita ser nutrida em seu potencial de sabedoria. De outra forma, será um instrumento incompetente. Ela ficará aguardando o que os sentidos prometem a ela, ficará aguardando a satisfação futura e, logo após o primeiro momento de satisfação, passará a temer a inevitável perda. Ela precisa tomar posse de um conhecimento mais amplo para ultrapassar essa armadilha sensorial restritiva.

As grandes ferramentas do Yoga para essa etapa são o estudo a respeito da natureza da mente e a meditação direcionada. Elas são, definitivamente, as ferramentas que mais nos ocuparão a longo prazo.

O Yoga, por essas razões, é um caminho que oferece um passo a passo claro da dependência para a independência. É um processo onde aquele que busca sua melhoria e crescimento é sujeito ativo. Técnicas terapêuticas passivas não fazem parte do sistema de yoga. Tais técnicas poderão ser adotadas através de terapias complementares, quando necessário.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Meditação e a Estrutura da Mente


Meditação
E a Estrutura da Mente
 
      
Prof. Jorge Luís Knak
       
      
 Em Porto Alegre – Setembro, Outubro e Novembro/2015


O CURSO 

Curso introdutório destinado a todos os interessados, praticantes, terapeutas e estudiosos que buscam conhecer a abordagem psicológica do yoga e sua principal prática, a meditação.

O conteúdo será distribuído em 3 encontros, onde buscaremos explorar a estrutura mental a partir das escrituras do Yoga e da introdução à prática de meditação com diferentes ênfases - pacificação, análise e contemplação.

 O primeiro encontro será direcionado para a prática de meditação como instrumento de pacificação da agitação e da instabilidade mental. Paralelamente, estudaremos a natureza de tais distúrbios para que possamos criar meios pessoais de reconhecer e reduzir tais obstáculos.

O segundo encontro priorizará o desenvolvimento de concentração através da meditação e será estudado o papel dessa qualidade na construção do conhecimento e do amadurecimento pessoal do ponto de vista do sistema de yoga.

O terceiro encontro terá como temas principais a sensibilização e a discriminação. Tais aspectos serão tratados, também, através da compreensão teórica e da prática meditativa.

Apesar de, nos tempos modernos, o Yoga ser mais conhecido no ocidente por seu viés físico, sua principal especialidade e contribuição é a meditação. E meditação, aqui, não é a prática de esvaziar a mente, mas de desenvolvimento de sensibilização e interiorização, qualidades essas que são necessárias para a próxima etapa, a conquista de discriminação. A discriminação, usada ativamente como ápice do processo meditativo, tem como propósito nos auxiliar no reconhecimento de que somos feitos de várias camadas e de que cada uma delas necessita um diferente alimento para sua nutrição e satisfação. A discriminação sem interiorização e sensibilização não nos oferece a apropriação do conhecimento, não é vivida como uma real conquista com poder de alterar nossa sensação de si e de mundo e, por consequência, nossa relação com o outro. É por esse motivo que a meditação se torna tão importante como meio de transformação e realização pessoal.



quinta-feira, 17 de outubro de 2013

SVA - A apreciação da diversidade humana




“Eu não acredito ser possível ensinar meditação em grupo, mas espero estar errado”
Prof. TKV Desikachar

O homem existe em espírito e em matéria. Além disso, cada indivíduo é fruto de uma comunhão única dos dois aspectos. Parto dessa premissa. Na verdade, mesmo do ponto de vista unicamente materialista, essa diversidade está assegurada. Pausa para um chá...precisamos apreciar isso, devemos nossa integridade a essa compreensão. Para que seja, então, contemplada a riqueza dessa comunhão, cada pessoa terá seu caminho particular no aprendizado de yoga. Assim é e assim era na abordagem tradicional clássica.
As ferramentas práticas ou as técnicas do yoga são inúmeras, entre elas estão inseridas práticas que envolvem o corpo, a respiração, o direcionamento mental, as emoções, a reflexão sobre o relacionamento consigo e com o mundo, a meditação a respeito da natureza da realidade, entre outras. Porém, em meio a essa grande diversidade de técnicas, na escritura central do yoga surge o conceito de “viniyoga”, que se destaca quando o assunto é ensino. Viniyoga significa aplicação apropriada, que revela a necessidade de uma análise a respeito do momento e da forma pela qual cada instrumento é utilizado. A técnica escolhida deve ser aplicada apenas após o professor ter conhecimento sobre as verdadeiras qualidades do praticante, adaptada de acordo com seu histórico e condições pessoais e adotada no momento em que tal prática tenha relevância. Esse conceito traz em si a reverência que o yoga manifesta perante a multiplicidade e diversidade. Somos muitos e somos diferentes, assim é, assim sempre será. O aprendizado está em apreciar essas diferenças e desenvolver conhecimento ou discriminação, não em fechar os olhos para elas e seguir um movimento pré-estabelecido.
Infelizmente, em praticamente todas as culturas modernas, a apreciação profunda do papel da diversidade e multiplicidade parece estar em decadência. Sistemas de conhecimento e tradições espirituais que, no passado, eram embasados em um relacionamento de coração entre professor e aluno, hoje são transmitidos sem vínculo pessoal. E isso, definitivamente, é também o problema moderno que precisa ser combatido no próprio meio do yoga. A tendência de nossa cultura moderna é apresentar receitas milagrosas e fixas, técnicas que servem ao usuário independentemente de seu nome, de sua história de vida e de seus questionamentos.
No yoga há várias palavras que começam com o prefixo “sva”. Entre elas “svadhyaya”, “svadharma”, “svabhava”, “svatantra”. “Sva” significa “si mesmo”. Em todas as palavras citadas esse prefixo se refere àquilo que me diferencia do outro. E essa diferenciação precisa ser acolhida, e não julgada nem eliminada. É justamente por isso que devemos lembrar de algo essencial para a reflexão que aqui se apresenta: a prática de meditação do yoga é composta de uma maneira muito pessoal. Não estamos tratando aqui de meios genéricos para acalmar a mente que, com certeza, podem também trazer grandes benefícios em práticas de grupo.
A cada vez que um professor comprometido com o ensino senta junto a um aluno, ele repensa a si mesmo, ele escuta, reflete e, junto com o aluno, constrói. Não há construção prévia para aquele que, de fato, se compromete com o papel de educar um indivíduo, pois ele mesmo faz o voto de educar a si mesmo no aprendizado que nascerá da relação. Sem escuta não há possibilidade de ensino real, esse conceito ao qual o educador deve se agarrar enquanto desempenha seu papel é chamado no yoga de “mauni”. Obviamente, se a relação não consegue chegar a essa comunicação de coração, o escutar também não poderá gerar nada vivo. Há dois lados envolvidos, o fruto depende de ambos. TKV Desikachar, professor de yoga que defendia insistentemente a importância do relacionamento individual entre professor e aluno, desempenhou uma função muito importante ao amadurecer esse ponto de vista na mente de professores renomados do mundo inteiro. Ele afirmava que essa relação muitas vezes pode levar anos a ser construída verdadeiramente e, algumas vezes, nem ao longo dos anos se estabelecerá.  Mas essa visão não é dele, é de um sistema de milhares de anos. Foi através dessa relação de coração que ele aprendeu com seu pai, e foi dessa forma que seu pai aprendeu com seus professores. Assim foi transmitido o yoga por dezenas e dezenas de séculos, através da crença na experiência individual, através do valor pela integridade de cada ser humano. Se isso não for apreciado não há possibilidade de yoga em seu sentido último.
A frase de Desikachar, que se encontra na apresentação deste texto, trata da impossibilidade do ensino de meditação em grupo, mas ele poderia ter substituído a palavra meditação por asana, por pranayama e por qualquer outra técnica, pois todos os grandes mestres não acreditavam na técnica, acreditavam no ser humano.
Ainda assim, o próprio Prof. TKV dirigia práticas de meditação em grupo em certas situações, pois sabia da importância de mostrar às pessoas o valor dessa prática. É como alguém que oferece um pedaço de pão a um faminto sem deixar que se apague a consciência de que aquele pão não solucionará a sua fome. Eis o segredo, oferecer o pão sem esquecer a real função e limitação do gesto. Eis o segredo, eis o desafio.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Há vida além da técnica (Yoga e Sagarbha)



Há um conceito no yoga chamado “Sagarbha”, palavra do sânscrito que significa literalmente “com útero”. A prática de conscientização da respiração (Pranayama) por exemplo, é dividida em Sagarbha e Agarbha (“com útero” e “sem útero”).

Do ponto de vista da tradição de yoga representada pelo Prof. T. Krishnamacharya (1888-1989), Sagarbha é considerada a prática mais completa. O que a diferencia do outro grupo é a presença de uma atitude mental que remete a uma determinada sabedoria enquanto a técnica é realizada. Um exemplo de prática Agarbha (sem útero ou sem vida) seria aquela que é realizada puramente para desenvolver a qualidade de atenção. Isso poderia, em certos casos, ser feito através de uma prática onde ficamos 20 respirações contando o tempo de duração de cada inalação e de cada exalação, por exemplo. Já podemos colher benefícios de uma prática como essa se considerarmos que ela foi corretamente ensinada e adaptada às características do praticante. Se a realizarmos com freqüência, podemos esperar por uma certa melhora na qualidade mental, ou seja, é uma prática que pode ser útil e adequada em muitos casos e é amplamente utilizada nos meios de yoga que não se limitam apenas ao trabalho com asanas (físico) ou com dhyana (meditação). A prática Agarbha, portanto, não deve ser excluída apenas pelo fato de não ser considerada completa, pois tem um papel importante no desenvolvimento de maior estabilidade e clareza. Porém, o que é importante compreendermos é que a mera construção de habilidades mentais não resolve tudo, pelo contrário, pode até causar desequilíbrios e danos. Essa é uma das razões pelas quais o yoga não acredita na possibilidade de um aprendizado “auto-didata” no que se refere à prática pessoal e nem apóia a proliferação de professores sem formação longa e bem embasada. O desenvolvimento de saúde física, ou de um corpo forte e flexível, não gera necessariamente resultados positivos, a nível mais amplo, pois podemos usar nossa força até mesmo para ferir alguém. O mesmo ocorre com o desenvolvimento de habilidades mentais (maior capacidade de atenção, memória, relaxamento). Sendo assim, no ensino de yoga existe a preocupação de que todas as habilidades que estejam sendo nutridas estejam a serviço de ações benéficas ou positivamente transformadoras. E só podemos reconhecer o que é uma ação benéfica se tivermos um sólido alicerce de sabedoria.

Considerando que nossa cultura tem como característica preponderante o valor pelo que é evidente, naturalmente veremos um apego a técnicas que geram habilidades e falta de questionamento sobre o que faremos com elas. Porém, a verdade é que técnicas são razoavelmente fáceis de serem aprendidas e executadas, tão fáceis quanto frágeis. O que leva tempo e exige comprometimento é o desenvolvimento de discriminação e sabedoria, construção essa que é tão exigente quanto segura. Um dos textos básicos da filosofia indiana diz, em seu verso de abertura: “Da perturbação causada pelos três tipos de sofrimento, surge o intenso desejo de descobrir os meios de eliminá-los. Se essa busca for considerada supérflua, uma vez que há meios evidentes de eliminá-los, responderemos que essa afirmação não é correta, porque através dos meios mais evidentes não há uma cessação definitiva do sofrimento e nem garantia da não-recorrência do mesmo” (Samkhya-Karika).
Podemos dizer que os “meios mais evidentes” de eliminação da perturbação e do sofrimento são as distrações ou ações que trazem alívio momentâneo. Isso não é exatamente uma condenação às várias formas de lazer ou de caminhos que pacifiquem nossa dor, mas uma lembrança de que não serão elas que eliminarão de fato a raiz do problema.
A prática Sagarbha (com útero ou com vida) seria, então, aquela que une o desenvolvimento da habilidade com a presença e a nutrição do discernimento. Há vários níveis de discernimento importantes para nosso amadurecimento se olharmos de forma mais terapêutica e ampla, entre eles a adoção de uma vida menos obcecada por conquistas externas ou a compreensão da riqueza que é se colocar no mundo como aquele que “oferece” ao invés de se colocar como aquele que “exige”. E há, também, do ponto de vista mais clássico, o discernimento que elimina a confusão entre o que é mais essencial e o que é mais supérfluo. A reflexão sobre esses dois pontos e tudo o que há entre eles é uma dedicação necessária para toda a vida, pois não nos basta a sabedoria enquanto teoria, mas sim enquanto experiência, sentimento. Quem sabe possamos olhar para o conceito de Sagarbha como sendo a atitude presente em todas as ações do dia, de segunda a domingo, em meio à nossa rotina. Quem sabe seja essa a real prática de Sagarbha. Ainda assim, em meio a nossas fraquezas e confusões, melhor que treinemos formalmente essa atitude para que possamos fortalecer sua presença nos momentos mais desafiantes do dia-a-dia.

Passamos muito tempo acreditando que o resultado mais visível de nossas ações é que nos garantiria o sucesso, é hora de pensar quão limitado e “sem vida” é esse sucesso. Se cada ação for realizada com a aceitação da sabedoria que ela, em si, acabará por nos proporcionar, o sucesso é certo, apesar de invisível. Que alegria seria se nossas crianças pudessem receber respingos desse aprendizado já na infância, assim poderíamos, talvez, abreviar décadas de confusão e frustração que se acumulam através da experimentação cega dos caminhos “evidentes”.


Jorge Luís Knak – 10/09/2013