1 - Emergência
A
doença
A doença é o primeiro grande obstáculo para todos os seres
humanos. Tanto a doença física quanto a doença emocional dificultam o desfrute
de prazeres e o estudo e a reflexão profunda. A tentativa de
sobrevivência e a busca de equilíbrio das funções vitais básicas é nossa
urgência. Muitas das técnicas que fazem parte da prática diária indicada pelo
Yoga têm por objetivo prevenir doenças e acalmar sintomas nascidos de
perturbações já estabelecidas.
A
perturbação emocional
O segundo grande tema do Yoga é a pacificação das perturbações emocionais mais emergenciais, o que traz a essa abordagem um aspecto bastante subjetivo. A
relatividade da eleição do que é emergencial não precisa ser visto como um
problema, uma vez que nosso maior propósito é acalmar seu aspecto subjetivo, o
desejo de livrar-se do problema, em primeiro lugar. Mesmo que o problema maior
não seja aquele eleito pelo praticante, sua pacificação permitirá que ele tenha
condições de reavaliar suas prioridades. Uma vez que a principal fonte de
perturbação tenha acalmado, o professor pode auxiliar o praticante a refletir
sobre o que será, de fato, um esforço útil no seu caminho de desenvolvimento.
Aqui, é provável que o foco se estabeleça em questões vinculadas aos
relacionamentos e seu conteúdo emocional. No Yoga, a análise de nossos
relacionamentos e de nossas expectativas projetadas no mundo externo é um
elemento essencial para a construção do processo de amadurecimento. Para isso,
a relação terapêutica com o professor é o principal instrumento. Assim como
ocorre em terapias psicológicas ocidentais, tal abordagem exige um
acompanhamento frequente e tempo para o amadurecimento das percepções, análises
e sua integração emocional. Com o tempo, o professor auxiliará o praticante a
desenvolver seu próprio processo de discriminação como será apontado adiante. A
relação terapêutica, na maioria dos casos, é acompanhada do desenvolvimento de
práticas pessoais (asana, pranayama, meditação, estudo) que são inseridas na
rotina do aluno para proporcionar a ele melhores condições internas. É essa
condição interna que acaba por abrir o espaço mental necessário para a
construção da aceitação de nossos obstáculos e para as transformações
possíveis.
2 – A leveza do corpo e a qualidade mental
Corpo,
respiração e mente
Na medida em que percebemos a diminuição das urgências
apresentadas acima, um próximo passo é bem-vindo. E, no Yoga, consideramos que
o aumento da estabilidade mental, concentração, capacidade de análise são alguns
dos pontos importantes em qualquer processo de autoconhecimento. No Yoga esses
aspectos estão ligados aos conceitos de Sattva, Rajas e Tamas. O torpor é
considerado manifestação de Tamas e a ansiedade é considerada manifestação de
Rajas. Tais características são fortemente afetadas pelos nossos
relacionamentos íntimos, nossa rotina, alimentação, saúde física e mental e,
também, por nossas crenças filosóficas ou religiosas. Como alicerces para a
redução de agitação, inquietude e obtusidade são usados o que chamamos de Asana
e Pranayama.
Asana é a prática física, sua técnica é realizada de forma a não deixar
de lado o cuidado com os próximos elementos que serão tratados - a respiração e
o treinamento mental. Devido à sua associação com técnicas respiratórias e de
envolvimento mental, o Asana afeta profundamente essas duas dimensões, apesar
de ser caracterizada como uma prática de ênfase física. O Yoga prioriza o
desenvolvimento integral e, por essa razão, suas técnicas não trabalham de
forma isolada essas várias camadas. O maior exemplo dessa integração é o conceito de
Vinyasa, onde respiração e movimento corporal são conectados na execução de
determinadas posturas. Já o pranayama é uma técnica centrada nos aspectos
físicos mais sutis do que aqueles trabalhados no asana e que enfatiza um trabalho
de aprofundamento e sensibilização da respiração. O pranayama, quando aprendido
no momento certo e com as devidas adaptações pessoais realizadas pelo
professor, oferece conquistas bastante superiores àquelas recebidas pela
prática do asana, uma vez que o pranayama é o natural aprofunfamento e
refinamento das conquistas do asana. O uso de técnicas físicas e respiratórias para
afetar a mente traz o benefício de oferecer a desejada calma e estabilidade
mental paralelamente ao aumento de bem-estar, leveza e saúde do corpo.
3
– Sabedoria
Mas, para que serve um bom carro se não sabemos para onde
queremos ir? Para que serve um corpo e uma mente sem um claro propósito de
vida? Um mundo emocional mais leve, um corpo mais saudável e uma mente mais
clara e em paz são grandes conquistas. E essas mesmas conquistas permitirão que
tracemos com mais refinamento nossos objetivos ao invés de sermos engolidos por
desejos assentados em carências e fragilidades. Sendo assim, o yoga nos alerta
para a necessidade de usarmos esse veículo (corpo e mente) para o
desenvolvimento de sabedoria. O estudo voltado para o autoconhecimento, a
discriminação sobre o que o mundo pode e o que não pode nos oferecer, a
descoberta de camadas mais profundas de percepção que permitem o conhecimento
daquilo que não é alcançado pelos meios mais evidentes, tudo isso é essencial
para a realização do potencial humano, para que alcancemos uma satisfação e um
contentamento mais abrangente. Grande parte dos sofrimentos humanos existe
devido à sustentação de nossa visão restrita e imediatista. Somos fortemente
tomados por aquilo que nossos sentidos e nossas emoções superficiais nos
apresentam. Somos muito influenciados pela percepção sensorial e pouco
utilizamos a análise e o estudo como base da ação cotidiana. Os sentidos querem
ser satisfeitos, são gulosos e acreditam na felicidade que nasce de sua
satisfação, porém, cabe à nossa mente mostrar a limitação dos mesmos. O
sentidos são apenas ligados ao presente, sua duração é extremamente curta, para os
sentidos não há ganho passado ou ganho futuro. O passado e o futuro, para eles,
são ausência, são perda, pois não há, em nossa condição humana, como
segurar eternamente a relação com qualquer objeto sensorial existente. A mente
sabe disso e cabe a ela discriminar e mostrar sua soberania. Mas, para isso,
ela necessita ser nutrida em seu potencial de sabedoria. De outra forma, será
um instrumento incompetente. Ela ficará aguardando o que os sentidos prometem a ela,
ficará aguardando a satisfação futura e, logo após o primeiro momento de
satisfação, passará a temer a inevitável perda. Ela precisa tomar posse
de um conhecimento mais amplo para ultrapassar essa armadilha sensorial
restritiva.
As grandes ferramentas do Yoga para essa etapa são o estudo a
respeito da natureza da mente e a meditação direcionada. Elas são,
definitivamente, as ferramentas que mais nos ocuparão a longo prazo.
O Yoga, por essas razões, é um caminho que oferece um passo a
passo claro da dependência para a independência. É um processo onde aquele que
busca sua melhoria e crescimento é sujeito ativo. Técnicas terapêuticas passivas não
fazem parte do sistema de yoga. Tais técnicas poderão ser adotadas
através de terapias complementares, quando necessário.