terça-feira, 15 de setembro de 2015

Uma breve visão do caminho gradual de Yoga (e o porquê do ensino individualizado)


1 - Emergência

A doença

A doença é o primeiro grande obstáculo para todos os seres humanos. Tanto a doença física quanto a doença emocional dificultam o desfrute de prazeres e o estudo e a reflexão profunda.  A tentativa de sobrevivência e a busca de equilíbrio das funções vitais básicas é nossa urgência. Muitas das técnicas que fazem parte da prática diária indicada pelo Yoga têm por objetivo prevenir doenças e acalmar sintomas nascidos de perturbações já estabelecidas.

A perturbação emocional

O segundo grande tema do Yoga é a pacificação das perturbações emocionais mais emergenciais, o que traz a essa abordagem um aspecto bastante subjetivo. A relatividade da eleição do que é emergencial não precisa ser visto como um problema, uma vez que nosso maior propósito é acalmar seu aspecto subjetivo, o desejo de livrar-se do problema, em primeiro lugar. Mesmo que o problema maior não seja aquele eleito pelo praticante, sua pacificação permitirá que ele tenha condições de reavaliar suas prioridades. Uma vez que a principal fonte de perturbação tenha acalmado, o professor pode auxiliar o praticante a refletir sobre o que será, de fato, um esforço útil no seu caminho de desenvolvimento. Aqui, é provável que o foco se estabeleça em questões vinculadas aos relacionamentos e seu conteúdo emocional. No Yoga, a análise de nossos relacionamentos e de nossas expectativas projetadas no mundo externo é um elemento essencial para a construção do processo de amadurecimento. Para isso, a relação terapêutica com o professor é o principal instrumento. Assim como ocorre em terapias psicológicas ocidentais, tal abordagem exige um acompanhamento frequente e tempo para o amadurecimento das percepções, análises e sua integração emocional. Com o tempo, o professor auxiliará o praticante a desenvolver seu próprio processo de discriminação como será apontado adiante. A relação terapêutica, na maioria dos casos, é acompanhada do desenvolvimento de práticas pessoais (asana, pranayama, meditação, estudo) que são inseridas na rotina do aluno para proporcionar a ele melhores condições internas. É essa condição interna que acaba por abrir o espaço mental necessário para a construção da aceitação de nossos obstáculos e para as transformações possíveis.



2 – A leveza do corpo e a qualidade mental

Corpo, respiração e mente

Na medida em que percebemos a diminuição das urgências apresentadas acima, um próximo passo é bem-vindo. E, no Yoga, consideramos que o aumento da estabilidade mental, concentração, capacidade de análise são alguns dos pontos importantes em qualquer processo de autoconhecimento. No Yoga esses aspectos estão ligados aos conceitos de Sattva, Rajas e Tamas. O torpor é considerado manifestação de Tamas e a ansiedade é considerada manifestação de Rajas. Tais características são fortemente afetadas pelos nossos relacionamentos íntimos, nossa rotina, alimentação, saúde física e mental e, também, por nossas crenças filosóficas ou religiosas. Como alicerces para a redução de agitação, inquietude e obtusidade são usados o que chamamos de Asana e Pranayama.

Asana é a prática física, sua técnica é realizada de forma a não deixar de lado o cuidado com os próximos elementos que serão tratados - a respiração e o treinamento mental. Devido à sua associação com técnicas respiratórias e de envolvimento mental, o Asana afeta profundamente essas duas dimensões, apesar de ser caracterizada como uma prática de ênfase física. O Yoga prioriza o desenvolvimento integral e, por essa razão, suas técnicas não trabalham de forma isolada essas várias camadas. O maior exemplo dessa integração é o conceito de Vinyasa, onde respiração e movimento corporal são conectados na execução de determinadas posturas. Já o pranayama é uma técnica centrada nos aspectos físicos mais sutis do que aqueles trabalhados no asana e que enfatiza um trabalho de aprofundamento e sensibilização da respiração. O pranayama, quando aprendido no momento certo e com as devidas adaptações pessoais realizadas pelo professor, oferece conquistas bastante superiores àquelas recebidas pela prática do asana, uma vez que o pranayama é o natural aprofunfamento e refinamento das conquistas do asana. O uso de técnicas físicas e respiratórias para afetar a mente traz o benefício de oferecer a desejada calma e estabilidade mental paralelamente ao aumento de bem-estar, leveza e saúde do corpo.


3 – Sabedoria

Mas, para que serve um bom carro se não sabemos para onde queremos ir? Para que serve um corpo e uma mente sem um claro propósito de vida? Um mundo emocional mais leve, um corpo mais saudável e uma mente mais clara e em paz são grandes conquistas. E essas mesmas conquistas permitirão que tracemos com mais refinamento nossos objetivos ao invés de sermos engolidos por desejos assentados em carências e fragilidades. Sendo assim, o yoga nos alerta para a necessidade de usarmos esse veículo (corpo e mente) para o desenvolvimento de sabedoria. O estudo voltado para o autoconhecimento, a discriminação sobre o que o mundo pode e o que não pode nos oferecer, a descoberta de camadas mais profundas de percepção que permitem o conhecimento daquilo que não é alcançado pelos meios mais evidentes, tudo isso é essencial para a realização do potencial humano, para que alcancemos uma satisfação e um contentamento mais abrangente. Grande parte dos sofrimentos humanos existe devido à sustentação de nossa visão restrita e imediatista. Somos fortemente tomados por aquilo que nossos sentidos e nossas emoções superficiais nos apresentam. Somos muito influenciados pela percepção sensorial e pouco utilizamos a análise e o estudo como base da ação cotidiana. Os sentidos querem ser satisfeitos, são gulosos e acreditam na felicidade que nasce de sua satisfação, porém, cabe à nossa mente mostrar a limitação dos mesmos. O sentidos são apenas ligados ao presente, sua duração é extremamente curta, para os sentidos não há ganho passado ou ganho futuro. O passado e o futuro, para eles, são ausência, são perda, pois não há, em nossa condição humana, como segurar eternamente a relação com qualquer objeto sensorial existente. A mente sabe disso e cabe a ela discriminar e mostrar sua soberania. Mas, para isso, ela necessita ser nutrida em seu potencial de sabedoria. De outra forma, será um instrumento incompetente. Ela ficará aguardando o que os sentidos prometem a ela, ficará aguardando a satisfação futura e, logo após o primeiro momento de satisfação, passará a temer a inevitável perda. Ela precisa tomar posse de um conhecimento mais amplo para ultrapassar essa armadilha sensorial restritiva.

As grandes ferramentas do Yoga para essa etapa são o estudo a respeito da natureza da mente e a meditação direcionada. Elas são, definitivamente, as ferramentas que mais nos ocuparão a longo prazo.

O Yoga, por essas razões, é um caminho que oferece um passo a passo claro da dependência para a independência. É um processo onde aquele que busca sua melhoria e crescimento é sujeito ativo. Técnicas terapêuticas passivas não fazem parte do sistema de yoga. Tais técnicas poderão ser adotadas através de terapias complementares, quando necessário.

3 comentários:

Marcio Teixeira disse...

Que dádiva encontrar este blog! Que possamos, teus leitores e alunos, subir estes degraus apoiados nos frutos de amor e sabedoria que por aqui florescem. Muito obrigado.

Marcio Teixeira disse...

Que dádiva encontrar este blog! Que possamos, teus leitores e alunos, subir estes degraus apoiados nos frutos de amor e sabedoria que por aqui florescem. Muito obrigado.

Clareana Saragiotto disse...

Bem legal esse texto, professor Jorge. Para iniciantes, fica bem claro o caminho individualizado do Yoga. Gratidão!