quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A-corda da Experiência Profunda

por Jorge Luís Knak

Samadhi, no yoga, é uma experiência vinculada à meditação. É quando a meditação gera clareza, compreensão profunda a respeito de algo sobre o qual estamos refletindo. Esta experiência é muito perseguida por praticantes de yoga e, aqui, meu propósito é desmistificar a sua importância (isolada).
Digamos que o samadhi seja a Rapunzel, confinada, como boa Rapunzel, mas careca. Sim, aqui nossa Rapunzel é careca. Ninguém gosta de inventar histórias de Rapunzéis carecas, mas, na história original, foi quase isso que ocorreu (o príncipe quase acabou cego e a Rapunzel quase acabou careca). Agradeço à bruxa por essa deixa.
A questão que abordo aqui é a seguinte: de que adianta uma Rapunzel, confinada no alto de uma imponente torre, sem loooongas tranças? Para não desprezá-la totalmente, digamos que, no mínimo, vai virar outra história.
O samadhi, experiência meditativa tão falada no yoga, é, na maioria dos casos, uma Rapunzel careca. Existem vários níveis de experiência mental ou emocional, cada nível tem marcas que geram alguns obstáculos, confusões, sofrimentos e outras marcas que geram bem-estar, felicidade. O samadhi é uma experiência temporária que, em princípio, não irá amadurecer ou “curar” todas as outras camadas emocionais. Ou seja, podemos ter algumas experiências interessantes, profundas, na meditação, mas continuarmos sendo bastante imaturos. O caminho do yoga exige de nós um olhar atento a cada um dos níveis emocionais, não há como fugir disso e ter frutos saudáveis. Seria mais fácil se pudéssemos nos isolar, criar um ambiente “místico” ou “acolhedor” e ali ficar à procura de experiências meditativas que nos remetessem a um grande estado de calma e, de quebra, ter todas as nossas confusões, dúvidas e conflitos emocionais resolvidos. Concordo, mas não foi assim que fomos criados. Nossa mente é mais complexa do que isso. A meditação, o samadhi, o pranayama, etc são meios, são práticas, não são o fruto. Assim como uma postura de yoga pode não ser saudável para uma determinada pessoa e um exercício respiratório especifico não ser adequado para outro, também a meditação e o samadhi têm suas limitações. Todas as práticas são ferramentas, acessórios, elas sozinhas não garantem amadurecimento e lucidez. O caminho do yoga exige ações, relações humanas e muito questionamento para nos levar a um ponto de maior clareza e felicidade bem alicerçada.
Experiências “profundas” não resolvem, sozinhas, nossas questões. Peguemos o exemplo de alguém que sente que ama profundamente a sua namorada ou namorado. Dependendo da estrutura e maturidade emocional desta pessoa, ela não conseguirá expressar isso de forma equilibrada e nem sequer conseguirá sustentar este sentimento por muito tempo. Podemos comparar esta experiência do “amar” com a experiência do “samadhi”. Ambas estão estabelecidas num nível mental profundo e ambas dependem de um amadurecimento de outros aspectos emocionais para que possam ser integradas e bem aproveitadas ou desfrutadas.
A pergunta a ser feita neste momento da reflexão poderia ser: mas é possível ter uma experiência de tanta calma e lucidez sem que tenhamos construído maturidade para integrá-la? A resposta é: sim. Todas as experiências se dão na mente, elas estão sujeitas a certas armadilhas de percepção, além de serem inconstantes por natureza. Isso ocorre também com o yoga. Nós podemos ter sensações de grande alegria, calma, bem-estar, silêncio interno, assim como podemos ter sensações de tristeza, confusão, temor. E esses dois extremos estão sujeitos às mesmas regras, eles vem e vão. Não é a experiência em si que nos beneficia, mas a sabedoria que nós podemos criar com a ajuda desta calma e clareza. Mais uma vez eu reforço, a experiência é só um meio. Este meio precisa de maturidade e conhecimento para ser bem aproveitado. Portanto, não deveríamos perseguir experiências, mas questionamento e autoconhecimento. Experiências isoladas facilmente alimentam nosso orgulho e arrogância, questionamento e autoconhecimento tendem a nos trazer mais humildade e discriminação. Não há técnica ou prática que substitua uma cuidadosa relação com as pessoas, com o mundo. Ressalto que não estou afirmando que técnicas ou práticas não são úteis. Elas, definitivamente, são úteis e necessárias, mas precisam estar dentro de um contexto que os antigos professores de yoga conheciam e sabiam proteger muito bem. A forma e o ambiente emocional no qual se dá este aprendizado técnico e, principalmente, humano, é que protege o correto fruto. Qualquer psicologia que se preze não vive de técnicas e nem só de palavras. Yoga é uma psicologia, assim nasceu e que assim sobreviva.

3 comentários:

Mariana Wartchow disse...

Muito bom!

Luciano disse...

Gostei do texto, gostei da analogia com a Rapunzel, e gostei do trocadilho com a-corda.

A corda da experiência profunda, que permitiria uma ponte (uma comunicação) desta experiência com a vida diária dos relacionamentos, seria acordar da experiência profunda, isto é, não usá-la como um meio de ‘alienação’ ou ‘fuga’ da realidade (o samadhi isolado numa torre, a Rapunzel careca).

É isso ou viajei?

Um grande abraço, caro professor e amigo!

Jorge Luís Knak disse...

É isso mesmo Luciano. A ponte é o mais difícil. Abraços